Adriano Albuquerque é jornalista esportivo e serviu como editor e repórter do site BasketBrasil (http://www.basketbrasil.com.br) por cinco anos, entre 2005 e 2010. Já passou pelas redações do diário LANCE! e do site Globoesporte.com, e cobriu diversos esportes como basquete, futebol americano, futebol, beisebol, streetball, tênis, vôlei e natação. Também foi assessor de imprensa da Federação de Futebol Americano do Rio de Janeiro e do Botafogo Mamutes. Atualmente, cobre MMA para o SporTV.com. É torcedor do Detroit Pistons desde os tempos dos Bad Boys de Isiah Thomas, Joe Dumars e Bill Laimbeer.

NBA Perde Lenda Fora das Quadras

Na metade da temporada da NBA, há muitas histórias para se comentar neste espaço: o domínio aparentemente indestrutível do Miami Heat sobre a liga, a temporada histórica de LeBron James, a imprevisibilidade da Conferência Oeste, as lesões de Leandrinho e Anderson Varejão, o prazo final de trocas... Porém, o assunto que quero abordar neste momento é o anúncio oficial da morte de Jerry Buss, proprietário do Los Angeles Lakers, aos 80 anos de idade. Buss faleceu na segunda-feira após o All-Star Game, dia 18 de fevereiro de 2013, devido a complicações no rim. Ele vinha lutando contra um câncer e passou os últimos 18 meses hospitalizado.

Coincidência ou não, esses 18 meses foram um período em que o Lakers voltou a viver turbulências. Buss foi internado poucos meses depois de a equipe roxa-e-dourado ser eliminada dos playoffs de 2010-11, na época defendendo seu título na temporada anterior, e deixou a franquia nas mãos do filho Jim Buss. Jim, doido para deixar sua estampa no clube, não se esforçou muito em tentar manter Phil Jackson, namorado de sua irmã Jeanie, como treinador e trouxe Mike Brown. Após uma temporada mediana à frente do Lakers, Brown foi demitido no início desta temporada e Jim, mais uma vez, deixou a emoção falar mais alto que a razão e esnobou Jackson, optando por contratar Mike D'Antoni.

O Lakers parece estar finalmente encontrando a melhor fórmula para jogar nas últimas semanas, e certamente vai arrumar a casa mais cedo ou mais tarde. Mas a turbulência no último ano e meio são evidências da força e inteligência com que Jerry Buss tocava o barco. Antes de Buss chegar a Los Angeles e comprar o Lakers, o Kings (time da NHL) e o Forum (antigo ginásio que abrigava os jogos de ambos os times na distante e, digamos, nada memorável cidade de Inglewood), o time de roxo-e-dourado não era a potência polarizadora que é hoje. Sim, já tinha seis títulos - cinco deles conquistados ainda Minneapolis, antes de a mudança para L.A. - e teve ídolos como George Mikan, Jerry West, Elgin Baylor, Wilt Chamberlain e Kareem Abdul-Jabbar, mas era ainda um mero capacho do Boston Celtics e não carregava o glamour que hoje permeia a franquia. Na época, inclusive, o Lakers estava com dificuldades financeiras.

Foi a chegada de Buss, em 1979, que virou o jogo. O empresário, doutor em química e com experiência no mercado imobiliário, dedicou todos os seus recursos para transformar o Lakers num espetáculo digno de Hollywood. Foi Buss quem transformou o time num desfile de superastros, graças à sua disposição para gastar mais que a concorrência para criar um time capaz de dar show. Com Magic Johnson, James Worthy e Abdul-Jabbar, entre outros, o estilo de basquete do Lakers lembrava os efeitos especiais das superproduções hollywoodianas. E não só isso: as Laker Girls e apresentações musicais completavam o show nos intervalos da ação. Para ver de perto apresentações dessas proporções, custava caro: Buss foi um dos primeiros a cobrar mais alto pelas cadeiras ao lado da quadra, e soube aproveitar a presença do superastro dos filmes Jack Nicholson para vender a imagem de que sentar ali trazia prestígio. Hoje, centenas de atores e músicos gastam quantias absurdas de dinheiro para serem fotografadas em assentos ao lado da quadra e se sentirem astros da estatura de Jack.

Jerry Buss foi também o primeiro a colocar jogos do Lakers na TV a cabo, de graça dentro do pacote básico das operadoras, e também vendeu o direito de nomeação do Forum quando isso ainda era novidade. Hoje, o impacto de seu trabalho pode ser notado até fora do basquete. Ginásios e estádios por todo o mundo têm nomes vendidos para empresas. Todos os times da NBA têm acordos para transmitir seus jogos em emissoras de TV a cabo locais. Um ano depois de Buss vender o Kings para Bruce McNall, o novo proprietário da equipe manobrou nos bastidores para obter Wayne Gretzky, então o melhor jogador de hóquei do mundo, em uma troca com o Edmonton Oilers. Com Gretzky no ringue de gelo, o Forum passou a lotar não só para jogos de basquete, mas também de hóquei.

Entretanto, o Kings jamais teve o mesmo sucesso do Lakers. Apesar de Buss investir no show, ele também sempre foi competente em acrescentar substância ao time. Sob seu comando, o Lakers alcançou 16 finais da NBA e conquistou 10 títulos. É facilmente o time de maior sucesso nos últimos 33 anos. Jim segue tentando emular as táticas do pai: assim como Jerry investiu em Magic para assumir a direção do time quando Abdul-Jabbar se aposentasse, o filho quase conseguiu Chris Paul para ser sucessor de Kobe Bryant. Quando a liga vetou a troca, Jim esperou e trabalhou por mais um ano até conseguir Dwight Howard na última offseason, na esperança que ele continue a linhagem de grandes pivôs da franquia, formada por Mikan, Chamberlain, Abdul-Jabbar e Shaquille O'Neal. Resta ver, porém, se Howard vai optar por seguir no clube, e se ele será um dia tão bom e bem sucedido quanto seus predecessores.

O Los Angeles Lakers já sente a falta de Jerry Buss, sem sombra de dúvidas. A NBA perde muito sem ele, um visionário que se dedicava de corpo e alma à franquia, diferentemente de muitos dos "novos ricos" que atualmente compram equipes atrás de prestígio e as vendem em poucos anos, quando não conseguem o mesmo lucro que em seus outros negócios. Que Buss possa, de seu cantinho no outro lado, guiar a liga e seu clube para dias melhores.

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