Adriano Albuquerque é jornalista esportivo e serviu como editor e repórter do site BasketBrasil (http://www.basketbrasil.com.br) por cinco anos, entre 2005 e 2010. Já passou pelas redações do diário LANCE! e do site Globoesporte.com, e cobriu diversos esportes como basquete, futebol americano, futebol, beisebol, streetball, tênis, vôlei e natação. Também foi assessor de imprensa da Federação de Futebol Americano do Rio de Janeiro e do Botafogo Mamutes. Atualmente, cobre MMA para o SporTV.com. É torcedor do Detroit Pistons desde os tempos dos Bad Boys de Isiah Thomas, Joe Dumars e Bill Laimbeer.

Hora da Redenção

A revanche com o Miami Heat nas Finais de 2014 é uma oportunidade de redenção para a maioria dos jogadores do San Antonio Spurs, mas talvez para ninguém tanto quanto para Tiago Splitter. Será a segunda chance do pivô brasileiro de conquistar seu primeiro título na NBA, numa equipe que já ganhou quatro deles antes de sua chegada. Mais do que isso, é o momento para apagar a má impressão deixada em sua primeira final, no ano passado, e provar que Tim Duncan pode aposentar os tênis, calçar as sandálias e deixar o garrafão alvinegro em suas mãos.

>> Como Splitter Parou Nowitzki | 2013 Finais: Heat X Spurs | Assista Ao Vivo!

Quando foi draftado na 28ª posição do Draft da NBA, em 2007, Splitter carregava as esperanças de um país inteiro de, enfim, ter um jogador protagonista na maior liga de basquete do mundo. Àquela altura, o catarinense já era o principal jogador do Tau Cerámica, na Espanha, bicampeão da Copa do Rei e da Supercopa. Em 2010, o pivô deixou a Europa com mais um título da Copa, dois campeonatos espanhóis, um prêmio de MVP (Jogador Mais Valioso) da Liga ACB, além de dois títulos da Copa América e um grande desempenho no Campeonato Mundial pela Seleção Brasileira.

Parecia um casamento perfeito com os Spurs: após levar quatro títulos da NBA entre 1999 e 2007, Duncan já passara de seu auge e estava lidando com muitas lesões. Splitter teria a oportunidade de aprender com um dos melhores alas-pivôs de todos os tempos e substituí-lo aos poucos.

A transição, porém, foi muito mais difícil do que o esperado. Acostumado a ser "o cara" tanto no clube quanto na Seleção, o brasileiro não lidou bem com a reserva e os minutos esparsos em suas duas primeiras temporadas. A queda na confiança acabou afetando sua atuação nas Olimpíadas de Londres-2012, quando teve médias razoáveis de 10,8 pontos, 48,4% de aproveitamento nos arremessos e 5,3 rebotes, abaixo do que era esperado de um dos protagonistas da seleção. Na temporada de 2012-13, Splitter enfim se firmou como titular em San Antonio e teve suas melhores médias na NBA em pontos (10,3), rebotes (6,4) e lances livres (73% de aproveitamento). Mais uma vez, no entanto, sua produção caiu nos playoffs, para 6,1 pontos, 3,1 rebotes e 53,6% no aproveitamento de arremessos de quadra (56% na temporada regular).

As Finais da NBA foram mais um obstáculo duro para Splitter. A imagem-símbolo do seu inferno astral foi o toco que sofreu de LeBron James no segundo jogo, mas suas dificuldades na série foram muito além daquilo. Enquanto outros pivôs, como Roy Hibbert, Tim Duncan e até Boris Diaw, eram capazes de aproveitar a falta de um antagonista de força no garrafão do Miami Heat, Splitter simplesmente não se encontrou no meio da constante movimentação do adversário.

Seu tempo em quadra diminuiu progressivamente nos primeiros quatro jogos, até que ele foi retirado do time titular na quinta partida, em favor de uma formação mais baixa com Duncan como pivô e Kawhi Leonard na posição 4 para contra-atacar o "smallball" do Heat, que vinha causando problemas a San Antonio. No decisivo jogo 7, Splitter jogou apenas 4min17s, e viu o segundo tempo inteiro do banco de reservas.

Desta vez, Splitter parece estar pronto. Seus números ofensivos na temporada não foram tão inspiradores - 8,2 pontos, 6,2 rebotes, 52,3% nos arremessos - mas seu papel na equipe cresceu e sua confiança e segurança em quadra nunca foram maiores.

O pivô figurou entre os melhores defensores da NBA por toda a temporada - 4,43 em defensive regularized adjusted plus-minus (quantidade de pontos a mais ou a menos sofridos por uma equipe enquanto um jogador está em quadra), 94,5 em defensive rating (pontos sofridos pelo time a cada 100 posses com o jogador em quadra) - e sua importância neste lado ficou cristalino na série de primeira rodada contra o Dallas Mavericks, em que foi muito eficiente na marcação de Dirk Nowitzki e ajudou a limitá-lo a 19,1 pontos e 42,9% de aproveitamento nos arremessos. Sua habilidade de marcar até a linha de três pontos será útil para limitar Chris Bosh, que desenvolveu seu chute de longa distância nesta temporada.

No ataque, Splitter tem produzido médias de 7,9 pontos, 6,8 rebotes e 2 assistências por jogo, além de bons aproveitamentos de 59% em porcentagem de arremessos eficientes e 64,4% em true shooting percentage (estatística que ajusta os valores dos chutes de 3 pontos e lances livres). Seu impacto estimado nos jogos subiu para 12,4%, a terceira melhor marca entre os jogadores que fazem parte da rotação de Gregg Popovich.

O momento é o ideal: Tim Duncan está com 38 anos de idade e pode se aposentar ao final da pós-temporada - seu contrato tem uma cláusula que o permite optar por mais um ano em San Antonio, mas a conquista de seu quinto anel de campeão da NBA seria como um desfecho de conto de fadas para sua ilustre carreira. Com a recente notícia de que o Flamengo vai jogar duas partidas da pré-temporada contra equipes da liga no segundo semestre e uma Copa do Mundo de basquete aguardando a seleção brasileira em setembro, um título para Splitter poderia ser o estopim para um "boom" no basquete nacional, a chave para que a modalidade volte a competir com o vôlei e o MMA pelo "segundo lugar" no coração esportivo dos brasileiros. Se o Brasil "rodar" cedo na Copa do Mundo de futebol (bate na madeira…), quem sabe, a conquista pode ganhar ainda mais mídia.

Tudo isso está nas costas de Tiago Splitter nestas Finais da NBA. Veremos se ele finalmente está pronto para carregar este peso a partir desta quinta-feira.

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